Pierre Lévy, sociólogo e filósofo francês, nascido em Túnis (Tunísia) e é um dos mais proeminentes pensadores da cultura virtual contemporânea. Lévy define a cibercultura como o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, atitudes, modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço, entendido como sinónimo de rede, o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. Estas definições apresentadas de ciberespaço e de cibercultura são plausíveis para a perceção do tema, porém insuficientes para uma adequada compreensão das complexidades por elas carregadas.
A
partir do conceito de cibercultura apresentado, podemos imaginar que, em algum
momento da história, criou-se o ciberespaço e somente após é que teria surgido
a cibercultura. Pensando desta forma, cria-se uma visão equivocada e tecnicista
da cibercultura. Equivocada porque o próprio conceito de (ciber) cultura não é
algo estático que surge em um momento específico como, por exemplo, com o
surgimento da internet, e tecnicista porque estaria associada apenas à
estrutura física e técnica da internet. Lévy defende a ideia de que o próprio
ciberespaço já é fruto de um verdadeiro movimento social da (ciber) cultura,
pois o computador pessoal foi criado por jovens californianos à margem do
sistema que queriam instituir novas bases para a informática para revolucionar
a sociedade. Junto com o computador pessoal, as redes digitais surgiram pela
liderança de grupos da juventude metropolitana escolarizada com as suas
palavras de ordem e as suas aspirações coerentes que representavam fortes correntes
culturais e procuravam alcançar a comunicação recíproca e a inteligência coletiva.
A
compreensão da dinâmica da cibercultura e da lógica do ciberespaço muda o modo
de perceber certos conceitos e o que eles de fato podem representar para o
futuro da humanidade. Lévy afirma que a técnica é uma das dimensões
fundamentais da cibercultura e do ciberespaço, mas o que está em jogo é a
transformação do mundo humano por ele mesmo. O autor destaca que não há nenhuma
distinção real bem definida entre o homem e a técnica, nem entre a vida e a
ciência. Essas distinções são criadas para fins de análise, mas não se deve
tomar esses conceitos para fins precisos como sendo regiões do ser radicalmente
separadas. Segundo ele, não podemos exprimir a técnica como uma condenação
moral ou como um fenómeno separado dos objetivos de mudança do coletivo e do
mundo das significações.
Nas
suas obras, Pierre Lévy procurou conceituar o ciberespaço como o novo meio de
comunicação que emerge da interconexão mundial dos computadores – a rede – “não
apenas em relação à infraestrutura material, mas quanto ao oceano de informações
que a comunicação digital abriga, assim como quanto aos humanos que navegam,
habitam e se alimentam desse universo”. O autor destaca que a cibercultura
seria, então, a cultura dotada de técnicas, valores, pensamentos e atitudes das
pessoas que se articulam nesse novo espaço.
O ciberespaço também é
o território que serve de base e expansão àquilo que Pierre Lévy chama de
inteligência coletiva, “uma inteligência distribuída por toda a parte,
incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta de uma
mobilização efetiva das competências”. Ela tem como finalidade perceber e
reconhecer as habilidades que se distribuem entre os indivíduos, com o intuito
de organizá-las para serem utilizadas em benefício da coletividade.
Para Lévy, a
inteligência não está limitada apenas a poucos privilegiados e, exatamente por
isso, o autor afirma que ela deve ser incessantemente valorizada. É necessário
procurar descobrir o contexto em que o conhecimento do indivíduo pode ser
considerado importante para o crescimento de determinado grupo. A proposta da
inteligência coletiva, evidenciada por Lévy, é o reconhecimento e
desenvolvimento mútuo de todos aqueles que se envolvem em tal projeto.
Neste artigo, procurou-se
resumir e integrar alguns estudos e reflexões filosóficas que atravessam o
conceito de cibercultura, de modo a contribuir para a construção de um panorama
abrangente sobre a questão das redes e sua utilização em mobilizações
políticas, incitando novas reflexões sobre esse tema.
Como
afirma Levy, a cibercultura reflete o “universal sem totalidade, pois, ao mesmo
tempo em que promove a interconexão generalizada, comporta a diversidade de
sentidos, dissolvendo a totalidade”. A cibercultura possibilita que uma
diversidade de movimentos e agentes sociais se conectem e teçam críticas aos
modelos hierárquicos e verticais hegemônicos de tomada de decisão. Nesse
sentido, a cibercultura traz a possibilidade de criar novas interações entre
culturas individuais e coletivas – inteligência coletiva – no ciberespaço.
O ciberespaço emerge
como um território de resistência aos modelos hierárquicos, verticais e hegemônicos,
pois a sua estrutura não comporta pontos fixos para a veiculação de informações,
além de haver condições de produção e distribuição instantâneas numa dinâmica
horizontal / todos-todos.
Os
movimentos sociais contemporâneos apresentam essa nova realidade a partir do
instante em que se apropriam da internet, tornando-a um componente vital para a
formação de redes de colaboração e solidariedade. Na atualidade, é possível
observar vários fenómenos simultâneos de mobilizações e protestos sociais iniciados
em rede virtual pelo mundo.
Assim, é possível
concluir que a internet – com a sua estrutura virtual e os seus fluxos
intensivos que geram rápida disseminação da informação – contribui para que
grupos e coletivos promovam intervenções quase que imediatas contra a
burocracia, o verticalismo, as hierarquias e demais instituições sociais que se
afastaram das realidades de tais grupos /coletivos.
A presente reflexão
apresenta complexidades da cibercultura que consideramos importantes para a
melhor compreensão da sociedade contemporânea e também da educação neste
contexto. A partir dos estudos de Pierre Lévy foram discutidas algumas questões
que fazem parte do contexto da cibercultura e que tornam a sociedade atual mais
complexa.
Neste sentido, para
analisarmos a cibercultura e a sua própria relação com as instituições,
principalmente educativas, poderíamos formular as seguintes interrogações: As
instituições educativas estão preparadas para acolher e tratar das novas
questões que surgem com a cibercultura? As escolas estão organizadas para trabalhar
segundo o princípio do universal sem totalidade do ciberespaço? A partir destas
questões percebe-se que grande parte das instituições educativas, na maioria
das vezes, não está preparada e estruturada para dar conta de muitas das complexidades
da cibercultura. Um possível motivo para essa inadequação é que as mesmas
surgiram e estão há séculos baseadas nas tecnologias intelectuais da escrita
que são completamente diferentes das tecnologias da informática.
Para
que os profissionais das instituições educativas possam melhorar o seu trabalho
como educadores é imprescindível que os mesmos estejam dispostos a compreender
mais profundamente os conceitos e implicações da cibercultura.
Neste
contexto, podemos elencar três exemplos significativos de cibercultura:
1. Ambientes virtuais tridimensionais – O Second Life;
2. Wikis – A Wikipédia;
3. Cursos Online Abertos e Massivos – Os Mooc.
1.
2. Quanto aos Wikis, englobam a coleção de informação em hipertexto ou em plataformas de construção colaborativa. Dos exemplos mais significativos, destacamos a enciclopédia livre Wikipédia. Lançada em 2001, é uma enciclopédia multilingue, online, mundial e gratuita. Configurada de forma colaborativa, permite à comunidade virtual desenvolver conteúdos e informações, que são disseminados a uma escala global, interagir com essa informação, aperfeiçoando-a a todo o momento. Este exemplo procura demonstrar a impressão da constante mutação e de co-construção tão características da cibercultura.



