domingo, 12 de novembro de 2023

O ciberespaço, a cibercultura e a inteligência coletiva de Pierre Lévy

 


Pierre Lévy, sociólogo e filósofo francês, nascido em Túnis (Tunísia) e é um dos mais proeminentes pensadores da cultura virtual contemporânea. Lévy define a cibercultura como o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, atitudes, modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço, entendido como sinónimo de rede, o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. Estas definições apresentadas de ciberespaço e de cibercultura são plausíveis para a perceção do tema, porém insuficientes para uma adequada compreensão das complexidades por elas carregadas.

A partir do conceito de cibercultura apresentado, podemos imaginar que, em algum momento da história, criou-se o ciberespaço e somente após é que teria surgido a cibercultura. Pensando desta forma, cria-se uma visão equivocada e tecnicista da cibercultura. Equivocada porque o próprio conceito de (ciber) cultura não é algo estático que surge em um momento específico como, por exemplo, com o surgimento da internet, e tecnicista porque estaria associada apenas à estrutura física e técnica da internet. Lévy defende a ideia de que o próprio ciberespaço já é fruto de um verdadeiro movimento social da (ciber) cultura, pois o computador pessoal foi criado por jovens californianos à margem do sistema que queriam instituir novas bases para a informática para revolucionar a sociedade. Junto com o computador pessoal, as redes digitais surgiram pela liderança de grupos da juventude metropolitana escolarizada com as suas palavras de ordem e as suas aspirações coerentes que representavam fortes correntes culturais e procuravam alcançar a comunicação recíproca e a inteligência coletiva.

A compreensão da dinâmica da cibercultura e da lógica do ciberespaço muda o modo de perceber certos conceitos e o que eles de fato podem representar para o futuro da humanidade. Lévy afirma que a técnica é uma das dimensões fundamentais da cibercultura e do ciberespaço, mas o que está em jogo é a transformação do mundo humano por ele mesmo. O autor destaca que não há nenhuma distinção real bem definida entre o homem e a técnica, nem entre a vida e a ciência. Essas distinções são criadas para fins de análise, mas não se deve tomar esses conceitos para fins precisos como sendo regiões do ser radicalmente separadas. Segundo ele, não podemos exprimir a técnica como uma condenação moral ou como um fenómeno separado dos objetivos de mudança do coletivo e do mundo das significações.

Nas suas obras, Pierre Lévy procurou conceituar o ciberespaço como o novo meio de comunicação que emerge da interconexão mundial dos computadores – a rede – “não apenas em relação à infraestrutura material, mas quanto ao oceano de informações que a comunicação digital abriga, assim como quanto aos humanos que navegam, habitam e se alimentam desse universo”. O autor destaca que a cibercultura seria, então, a cultura dotada de técnicas, valores, pensamentos e atitudes das pessoas que se articulam nesse novo espaço.

O ciberespaço também é o território que serve de base e expansão àquilo que Pierre Lévy chama de inteligência coletiva, “uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta de uma mobilização efetiva das competências”. Ela tem como finalidade perceber e reconhecer as habilidades que se distribuem entre os indivíduos, com o intuito de organizá-las para serem utilizadas em benefício da coletividade.

Para Lévy, a inteligência não está limitada apenas a poucos privilegiados e, exatamente por isso, o autor afirma que ela deve ser incessantemente valorizada. É necessário procurar descobrir o contexto em que o conhecimento do indivíduo pode ser considerado importante para o crescimento de determinado grupo. A proposta da inteligência coletiva, evidenciada por Lévy, é o reconhecimento e desenvolvimento mútuo de todos aqueles que se envolvem em tal projeto.

Neste artigo, procurou-se resumir e integrar alguns estudos e reflexões filosóficas que atravessam o conceito de cibercultura, de modo a contribuir para a construção de um panorama abrangente sobre a questão das redes e sua utilização em mobilizações políticas, incitando novas reflexões sobre esse tema.

Como afirma Levy, a cibercultura reflete o “universal sem totalidade, pois, ao mesmo tempo em que promove a interconexão generalizada, comporta a diversidade de sentidos, dissolvendo a totalidade”. A cibercultura possibilita que uma diversidade de movimentos e agentes sociais se conectem e teçam críticas aos modelos hierárquicos e verticais hegemônicos de tomada de decisão. Nesse sentido, a cibercultura traz a possibilidade de criar novas interações entre culturas individuais e coletivas – inteligência coletiva – no ciberespaço.

O ciberespaço emerge como um território de resistência aos modelos hierárquicos, verticais e hegemônicos, pois a sua estrutura não comporta pontos fixos para a veiculação de informações, além de haver condições de produção e distribuição instantâneas numa dinâmica horizontal / todos-todos.

Os movimentos sociais contemporâneos apresentam essa nova realidade a partir do instante em que se apropriam da internet, tornando-a um componente vital para a formação de redes de colaboração e solidariedade. Na atualidade, é possível observar vários fenómenos simultâneos de mobilizações e protestos sociais iniciados em rede virtual pelo mundo.

Assim, é possível concluir que a internet – com a sua estrutura virtual e os seus fluxos intensivos que geram rápida disseminação da informação – contribui para que grupos e coletivos promovam intervenções quase que imediatas contra a burocracia, o verticalismo, as hierarquias e demais instituições sociais que se afastaram das realidades de tais grupos /coletivos.

A presente reflexão apresenta complexidades da cibercultura que consideramos importantes para a melhor compreensão da sociedade contemporânea e também da educação neste contexto. A partir dos estudos de Pierre Lévy foram discutidas algumas questões que fazem parte do contexto da cibercultura e que tornam a sociedade atual mais complexa.

Neste sentido, para analisarmos a cibercultura e a sua própria relação com as instituições, principalmente educativas, poderíamos formular as seguintes interrogações: As instituições educativas estão preparadas para acolher e tratar das novas questões que surgem com a cibercultura? As escolas estão organizadas para trabalhar segundo o princípio do universal sem totalidade do ciberespaço? A partir destas questões percebe-se que grande parte das instituições educativas, na maioria das vezes, não está preparada e estruturada para dar conta de muitas das complexidades da cibercultura. Um possível motivo para essa inadequação é que as mesmas surgiram e estão há séculos baseadas nas tecnologias intelectuais da escrita que são completamente diferentes das tecnologias da informática.

Para que os profissionais das instituições educativas possam melhorar o seu trabalho como educadores é imprescindível que os mesmos estejam dispostos a compreender mais profundamente os conceitos e implicações da cibercultura.

Neste contexto, podemos elencar três exemplos significativos de cibercultura:

1.    Ambientes virtuais tridimensionais – O Second Life;

2.  Wikis – A Wikipédia;

3.  Cursos Online Abertos e Massivos – Os Mooc.

 

1.   O Second Life, um dos exemplos mais conhecidos dos ambientes virtuais tridimensionais, permite, a partir da configuração de um avatar, simular a vida real e social de um ser humano. Criado em 1999 e desenvolvido em 2003, reflete em grande escala a necessidade do ser humano criar outros “eu”. A gamificação do processo de aprendizagem torna-o motivador e viciante, a sua dimensão social torna-o real e próximo do utilizador e a sua característica interativa e dinâmica gera um conjunto de oportunidades de e-learning e de difusão do conhecimento altamente significativas. De entre os inúmeros destinos, vários são aqueles ligados a instituições académicas, nos quais a partilha de informações se revela altamente cibercultural.



2.  Quanto aos Wikis, englobam a coleção de informação em hipertexto ou em plataformas de construção colaborativa.  Dos exemplos mais significativos, destacamos a enciclopédia livre Wikipédia. Lançada em 2001, é uma enciclopédia multilingue, online, mundial e gratuita. Configurada de forma colaborativa, permite à comunidade virtual desenvolver conteúdos e informações, que são disseminados a uma escala global, interagir com essa informação, aperfeiçoando-a a todo o momento. Este exemplo procura demonstrar a impressão da constante mutação e de co-construção tão características da cibercultura.


          

3.  Os Cursos Online Abertos e Massivos – MOOC – do inglês Massive Open Online Course, são um evidente, atual e significativo exemplo de cibercultura. Estes cursos abertos na Web, levam a cabo a missão de democratizar o conhecimento, no espaço onde ele está mais presente, mais distribuído e mais participativo – o ciberespaço. Mais do que uma escola e mais do que um curso online, um MOOC é uma forma conectada, colaborativa e de envolvimento no processo de aprendizagem. Com um número indefinido de participantes, independentemente da sua localização geográfica, é um evento no qual a comunidade virtual reflete, participa e desenvolve um determinado assunto. Ao promover um ensino conectado e colaborativo em rede, e mais do que um exemplo significativo, é uma forma de difusão e progresso da cibercultura.